À Espera Do Inverno

Durante o Verão, os incêndios acompanham-se à distância: nas notícias, nos alertas e na forma como passam a ocupar o olhar. Este é o intervalo de espera antes do regresso, no inverno, ao território marcado pelo fogo.

À Espera Do Inverno

Quem vive, ou tem raízes, no centro, passa o Verão um pouco com o coração nas mãos. Cada ignição parece criar um estado de ansiedade, independentemente de ser próxima ou não. Há uma certa fatalidade de quem vive no Pinhal Interior: mais ano, menos ano, o fogo chegará. E, a cada Alerta CM, fica a dúvida se o próximo será mais perto. Foi esse sentimento que esteve na origem do meu projecto.

O facto de agora ter um projecto em que o ponto de partida são os incêndios, mas que me obriga a fotografar no inverno, acrescenta uma nova dimensão. Fica-se mais atento, começa-se a apanhar incêndios em todo o lado, em todas as coisas por onde se passa. A vegetação, os terrenos abandonados, a luz ao fim do dia ou uma mancha no horizonte podem trazer o fogo para dentro do olhar, mesmo quando ele não está ali. Ficar à espera que o Verão termine, que a «época» acabe sem problemas e, no meu caso, que possa regressar ao território num contexto que faça sentido para retomar o trabalho.

Durante o Verão, os incêndios chegam quase sempre antes de serem vistos. Chegam pelas notificações, pelas imagens nos telejornais, pelos mapas, pelas conversas e pelas mensagens que começam a circular. Mesmo quando o fogo está longe e não há perigo imediato, a distância não o torna abstracto. Pelo contrário, faz com que se espalhe pela rotina: interrompe uma conversa, muda a atenção, torna mais inquieto o regresso a casa ou a viagem para o interior.

Este trabalho parte desse lugar de espectador: acompanhar o incêndio a partir de onde ele chega, através de imagens, alertas, conversas e sinais dispersos. É uma posição limitada, mas é também a posição de quem vive o Verão com o centro do país na cabeça e o território à distância. O fogo pode estar a acontecer noutro lugar e, ainda assim, ocupar o espaço onde estamos.

Há qualquer coisa de estranho nesta forma de estar ligado a um lugar. No inverno, regresso para ver o que ficou, quando as imagens já desapareceram das notícias e a paisagem começa a absorver as marcas do que aconteceu. No Verão, fico aqui, atento ao que pode estar a acontecer lá. O projecto acaba por existir entre esses dois tempos: o depois do fogo e a espera pelo próximo.

As fotografias deste Verão ficam nesse intervalo. São uma tentativa de acompanhar sem ir ao encontro do incêndio, de perceber como o fogo se torna presente antes de entrar na paisagem e como continua a existir mesmo quando só chega através de uma notícia, de uma luz diferente ou de uma inquietação difícil de desligar. Agora que o Verão está a chegar ao fim e o inverno se aproxima, a espera dá lugar ao regresso: posso voltar ao território, ver o que ficou e continuar o projecto a partir daí.